domingo, 20 de novembro de 2011

27- União x Separação

Scott estava no carro com as mãos no volante. Kate do lado de fora, na janela, berrado, ora tentando abrir a porta do carro, ora afastando as mãos do Scott do volante e das chaves.
“Você vai ficar. Para com isso, vai acabar se machucando. Já disse que vou sozinho.” Scott berrava de volta para a Kate.
Matheus chegou até eles antes de mim. “Abre essa porta que você não vai sozinho.”
“Você precisa ficar pra cuidar delas.”
“Não preciso de uma babá. Ela é minha filha e eu vou.”
“Scott...” Disse sem fôlego mais pelo medo de que o Scott partisse sozinho do que pela corrida.
Ele encontrou meus olhos e sua expressão mudou. “Tudo bem. Entrem logo.”
***
Assistíamos todos a uma partida de basquete no colégio. 
Scott era de longe o melhor. Seus movimentos eram perfeitos; eu não precisava entender do jogo para afirmar isso. Ele era tão brilhante em tudo o que fazia, em qualquer lugar... Era sempre o que mais chamava atenção. 
Em cada cesta ele fazia questão de mandar um beijo apontando pra mim. Como era exibido... E por mais vergonha que eu sentisse, sentia igualmente satisfação. Eu imaginava se meu coração não iria parar de vez numa daquelas horas.
Assim que o jogo terminou, dando fim ao campeonato em que o time da nossa escola ganhou, eu só conseguia ver o Scott no meio de toda aquela multidão alvoroçada. Saí em sua direção, pulei em seus braços que já me aguardavam abertos.
“Você é lindo, Scott!”
“O quê?”
“Eu te amo!” 
***
Aconteceu tão rápido... Num momento estávamos saindo do carro, no outro senti uma pancada forte contra a minha cabeça, um gosto amargo na boca e mais nada... Onde eu estava?
***
“E o Jack, Scott?”
“O que tem ele?” Sua voz ficou ríspida.
“O que aconteceu entre você dois? Vocês são irmãos, né, mas...”
“Não somos irmãos e não quero falar sobre isso.”
“Não entendo. Aconteceu algo tão ruim assim?”
Ele bufou. “Mari, não quero falar sobre isso.”
“Tem muita coisa que não quero falar com você e que você insiste mesmo assim. Então, nada mais justo.”
Bufou novamente. “Eu fui um idiota, ok? Era isso que queria ouvir? Eu só fiz idiotice na minha vida. Só que... Não quero me desculpar com ele, com qualquer um, menos com ele.”
“Por que não?”
A dificuldade de falar sobre aquilo era mesmo algo significativo. Ele abria e fechava os lábios diversas vezes, procurando as palavras. Sua expressão era confusa, não sabia dizer se era raiva ou tristeza, talvez fossem os dois. 
Eu poderia acalmá-lo, dizendo para deixar para lá, mudando de assunto. Mas se eu o fizesse, não estaria realmente ajudando.
“Não seria o bastante. É a única coisa pela qual não posso me perdoar. Quer dizer... Ele não tinha ninguém e eu fiz de tudo pra complicar mais as coisas. Eu podia ter feito alguma coisa, sabe? Eu podia...” Suspirou. “A forma como ele age nunca fez sentido pra mim e isso me irritava. Me irritava também que nada do que eu fizesse o atingisse de verdade. Não me orgulho de nada disso. Não sei o que se passava na minha mente também, mas eu queria muito irritar o Jack... Irritar todo mundo. Era uma raiva tão grande dentro de mim. A mãe dele tinha se tornado a minha... eu não queria dividir isso. Sei lá. Uns pensamentos tortos.” Deu uma pequena pausa. “Como pedir desculpas por isso? Não posso...”
***
Minha vista começava a encontrar algum sentido das coisas ao meu redor. As madeiras mofadas e pregadas umas sobre as outras de mau jeito formavam um lugar muito ruim para se estar. Minha cabeça pesava uma tonelada e não conseguia direcioná-la direito. Meus braços pareciam estar amarrados, não sabia dizer ao certo, porque a dor era intensa.
Senti um gelo profundo atingir meus pulsos e gemi.
“Shi. É a nossa chance de escapar agora. Tenta não fazer barulho...” Scott sussurrava, mas não fazia sentido. Nada fazia.
***
“Por mim a gente cancelava esse jantar... assim você não precisava se preocupar com roupa...” Scott insinuou quando pedi a sua opinião sobre dois vestidos.
“Para, Cott... É sério.”
Ele sorriu convidativo ignorando meu apelo.
“Vou com o preto então.” Fingi não ter desejado largar aqueles vestidos pra longe pra me jogar em seus braços.
“Te espero no carro.” Scott saiu frustrado.
Dizem que devemos viver como se não houvesse amanhã... e se eu apenas tivesse dado ouvidos a esse conselho...
***
“Vem, Mari...” Scott me apoiava em seus ombros. “Consegue ficar em pé, amor?”
Vi Kate, Colli e Matheus.
“Então vamos...” Scott ameaçou me guiar com paciência, mas um som de motor de carro o deixou em pânico.
“O que está acontecendo?” Perguntei aflita.
Ele colocou suas mãos ao redor do meu rosto, seu olhar... “Vou tirar você daqui. Só preciso que corra, você consegue?”
“Acho que sim...” Já estava menos tonta ou talvez fosse apenas o medo.
Ele sorriu. “Te amo.” Me deu um beijo rápido e me levou apressado.
Uma porta se bateu. Perto demais.
***
“Qual é o seu maior medo?” Perguntei.
“Não tenho nenhum.” Ele disse sem ao menos refletir.
“Nossa... Sério mesmo?”
“Medo é para os fracos!” E gargalhou. 
Continuei séria, duvidando.
“Não tenho mesmo medo de nada... Tem jeito pra tudo. Você tem medo de quê?”
De perdê-lo, somente isso, desesperadamente isso... mas como dizer?
***
Matheus pegou a Colli do colo da Kate. “Sou mais rápido e assim você pode correr mais também.”
Tudo acontecia rapidamente. Eles saíram por um lado correndo na rua escura. A porta atrás da gente se abriu. Scott me puxou com força me fazendo correr com ele também. Chovia muito. Era um silêncio sem fim. Era um barulho sem fim. Não importava. Eu tinha que correr sem parar.
Scott pareceu tropeçar quando voou um pouco mais na minha frente. Seu olhar não era de alguém destemido...  Senti algo me atingir e despenquei com o Scott no chão.
Que frio. Scott encarava o vazio... seus olhos vazios... Deixei de sentir o frio, a chuva, a dor... Tudo escureceu.

domingo, 13 de novembro de 2011

26- Destino x Livre Arbítrio

Não fazia ideia de que horas eram quando chegamos à Primavera e encontramos uma Kate com olhos fundos e vermelhos. Soltou um palavrão assim que nos viu parando o carro.
“Pensei que nunca fossem chegar. É tarde demais, não é?” Mais palavrões. “O que vou fazer agora?”
Foi um gesto tão singelo e com toda aquela situação não deveria ter feito com que eu me sentisse daquela forma, mas quando vi Kate saindo dos braços protetores do Matheus para os braços do Scott, como se ali fosse o seu lugar, precisei fingir que aquilo não doeu no meu coração.
***
“Ah, eu peguei esse livro hoje lá naquela livraria que te mostrei.” Matheus teria dito mais se nossa atenção não fosse desviada para as gargalhadas que foram iniciadas por três criaturas no quintal.
Senti-me tão distante, como uma plateia, na varanda da casa da Kate assistindo aquela cena: Scott correndo atrás da Kate juntamente com a pequena Colli. Ele encheu a Kate de cócegas assim que a alcançou e as risadas eram tão alegres... 
Pareciam um jovem casal com sua filha. Não consiga ver de outra forma. Mas ele e Kate não tinham nada... Scott estava comigo por livre e espontânea vontade... Não era? Eram pensamentos ruins que eu precisava afastar da minha mente doentia. 
Virei as costas já pronta para entrar na casa e ocupar a mente com qualquer outra coisa. Matheus pegou a minha mão, impedindo-me. Seus olhos pediam que eu ficasse ali com ele, mas não ousou pronunciar.
Eu ficava até lisonjeada vendo todas as colegiais me odiando por estar namorando o Scott. Adorava vê-lo ignorando todas elas. Mas só precisava vê-lo sorrindo para a Kate para os piores pensamentos surgirem em minha mente. Pensei em como o Matheus poderia suportar ver Kate toda noite com alguém diferente e não ter enlouquecido.
“Como você aguenta?”
Matheus, que ficou de costas para a diversão no quintal (ao pegar na minha mão), acompanhou meus olhos para onde os outros três brincavam apenas para suspirar, porque ele já tinha visto, e voltou para mim com olhos cansados.
Eu sabia... eu sabia, porque era palpável de tão grande o amor que Scott e Kate sentiam um pelo outro. Só não conseguia entender. E a todo custo eu preferia fingir que era só uma amizade como outra qualquer.
“Sem ela...” 
Ele nunca precisou terminar aquela frase. 
***
Eu estava na cozinha com o Matheus, colocando um pouco de açúcar em um copo de água. Uma gritaria começou do lado de fora da casa.
“Eles não estavam aqui dentro?” Matheus.
O som do motor do carro foi mais do que o suficiente para que saíssemos da cozinha às pressas.
***
Eu nunca, em toda a minha vida, tinha pisado em um parque de diversões.” Comentei com o Scott durante um passeio da turma.
Ele deu um leve aperto na minha mão que segurava, satisfeito. “Vou te levar ao lugar mais romântico de todo o parque: a Roda Gigante.”
Devolvi o aperto em sua mão.
“Pra onde todos foram?” Perguntei vendo uma multidão de pessoas desconhecidas pelo parque.
“Kate disse que vinha depois...”
“Você já me disse. Quero saber dos meus amigos que estiveram o tempo todo conosco na viagem. Yasmin e Derick também disseram que vinham depois, mas até agora nem deram sinal de vida.”
“Não sei.”
Seu celular começou a tocar. “É a Kate.” Scott disse ao olhar a tela do aparelho.
“Oi, Kate. Já está vindo?... O quê?” Soltou a minha e se afastou um pouco, para mais distante das músicas altas.
Voltou aflito. “Amor, Colli está queimando de febre. Ela já está indo ao hospital e eu vou também para não deixa-la sozinha. Não tem trânsito, vou levar meia hora.” Olhou ao redor procurando algo.
“Então também vou com você.”
“Não, não, amor. É a sua primeira vez aqui, quero que se divirta. Ali!” Olhei no mesmo instante para onde ele apontava. “Seus amigos. Vamos lá. Vou te deixar com eles antes de ir.”
Fui tão egoísta por tanto tempo que quando decidi não mais ser achava que precisava fazer a vontade dele acima da minha e que isso era não ser egoísta, que isso era amar. 
“Deixa que vou até eles. Vai lá pro hospital.” Forcei um sorriso, o melhor que pude.
“Prometo não demorar.”
“Te espero.”
Deu um beijo estalado em meus lábios e foi embora.
Ele sempre cumpre suas promessas, reforcei o pensamento.
“O que faz sozinha?” Matheus me deu um susto aparecendo do nada. “Desculpa, não quis te assustar.”
Não era ele que deveria ter ido ficar ao lado da Kate? Por que tudo parecia tão errado, tão fora de ordem? E eu ainda não fazia ideia... Não se deve mexer com o destino, ele tem um jeito de deixar tudo em seu lugar e eu aprendi essa lição da pior forma possível.
“Vi seus amigos logo ali, vem?” Ofereceu-me sua mão.
Parte de mim queria continuar no mesmo lugar esperando pelo retorno do Scott e essa mesma parte precisava da companhia do Matheus.
Coloquei minha mão na sua e enquanto quase morria do coração diversas vezes naqueles brinquedos malucos com meus amigos, também quase esquecia que faltava alguém ali.
Já era noite quando todos decidiram ir à Roda Gigante.
“Vem, Mari. Esse é o mais tranquilo, não precisa ter medo.” Matheus.
“Não... Estou cansada. Vou dar um tempo.”
Matheus estava já descendo um degrau para ficar comigo quando o parei. “Você vai. Só quero ficar um pouco sozinha.”
“Você merece mais do que um cara que te larga sozinha.”
“Acho que o mesmo vale pra você.”
Ele sorriu triste. “É...” Virou as costas subindo.
“Math!”
Ele parou.
“Obrigada.”
Fiquei parada na entrada do parque por um incontável tempo. Quando o Scott surgiu caminhando na minha direção toda a minha raiva se foi. Quis muito bater nele, xingá-lo, reclamar por ele ter me deixando por conta própria; mas estava tão feliz por tê-lo de volta...
Corri até onde ele estava e o abracei. 
“Desculpa... Acabei demorando. Vamos agora?” Apontou com a cabeça na direção da roda gigante.
“Vamos...”
Scott falou sem parar na roda gigante. Eu segurava firme as suas mãos, como se a qualquer momento ele fosse receber um telefonema e saltar dali mesmo para longe de mim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

25- Guerra x Paz

 “Fala com calma, Kate, não estou conseguindo entender nada do que diz.”
Scott já estava falando com a Kate pelo celular. Saltei da cama e fui até ele.
“O Matheus está aí com você?”, “Ah, entendi.”, “Mas tenta ficar calma”, “Já estou indo.”
Olhava dentro dos olhos do Scott durante toda a curta conversa tentando descobrir o que acontecia, estava realmente assustada com o estado de nervos em que o Scott ficou.
Desligou.
“O que foi?”
“Preciso ir até Primavera agora.” Ele procurava pelas chaves do carro, adivinhei.
“Na primeira gaveta no quarto.” Indiquei. “Ainda é quinta, o que vai fazer em Primavera? O que aconteceu com a Kate? O que tem o Matheus?”
Ele deu um giro e já estava no quarto pegando a chave. Voltou no mesmo segundo.
“Vai sem roupas?”
Scott se olhou irritado. “Coloca as suas também, que te deixo no dormitório no caminho.”
“Mas eu vou com você pra Primavera.”
Comecei a me vestir apressadamente como ele.
“Claro que não.”
“Claro que sim! E você vai me dizer o que está acontecendo.”
“Ákyl levou a Colli.”
“Ah?”
“Já está pronta? Vamos.”
Foi um pulo até chegarmos ao carro.
“Matheus também está lá?”
“Ele quis ir com a Kate cuidar da Colli... Você sabe que a babá furou...”
“Mas... Ákyl? O que esse infeliz ainda faz por aqui? Pensei que ele não fosse mais voltar, você disse que...”
Ele me interrompeu irritado. “É, eu sei o que eu disse.”
Desde o acidente que o Derick e a Yasmin sofreram no carro no ano anterior, eu ficava imaginando coisas toda vez que estava em um, era estúpido já que foi um caso completamente a parte, mas não conseguia evitar e com os solavancos que o Scott estava dando o meu medo parecia muito sensato.
“Desculpa, Mari...” Ele disse de repente. “Não queria falar com você assim. Estou nervoso, mas não tem nada a ver com você. Desculpa.”
“Eu entendo. Só não precisa dirigir que nem um louco.”
Scott sorriu nervoso. “Tem certeza de que quer ir comigo?”
“Claro.” Ele deveria saber que eu iria para qualquer lugar que ele fosse.
“Me sinto culpado.”
“Culpado?”
“Garanti a Kate que ela nunca mais precisaria se preocupar com ele e ainda trouxe a Colli...” Apertou os lábios. “Se algo acontecer com a Colli... nunca vou me perdoar.”
Peguei o seu ombro. “Ei, nada vai acontecer ela. Vai ficar tudo bem.”
“Como você pode dizer isso?”
É eu não podia... Não respondi e ficamos em silêncio por um tempo.
“Qual é o seu plano?”
“Acho que sei onde ele está. Se eu estiver certo, posso pegar a Colli de volta e dessa vez esse cretino não vai escapar.” Ele me olhou rapidamente. “Você está morta. Dorme um pouco, ainda vai demorar até chegarmos.”
Não queria dormir, não devia estar com tanto sono assim, mas meus olhos se fechavam e eu não conseguia impedi-los.
***
“Não quero ir dormir...” Fiz manha, abraçando o Scott no momento em que ele planejou abrir a porta do carro para nos levar de volta ao dormitório.
“Você sabe que temos que ir...”
“É eu sei.” Concordei sem ânimo. “Só que o tempo passa tão rápido quando estou com você...”
Scott suspirou antes de afrouxar meu abraço. “Temos a vida toda. Agora é melhor voltarmos logo, não quero quebrar a confiança dos seus pais.”
“Viu porque era melhor antes?”
“Antes de contá-los sobre nós?”
“É!” Disse abrindo a porta do carro irritada. “Antes não tinha problema dormir fora do dormitório, porque eles sequer sabiam. O tempo que já é pouco fica ainda menor.”
Ele entrou no carro ao mesmo tempo. “Estive esperando até hoje que você falasse sobre conhecer os meus pais.”
O que isso tinha a ver com o que eu falava? Não tinha importância, não quando o Scott falava daquele jeito...
“Desculpa. Eu não...”
“Deixa isso pra lá. Não acho que seria mesmo uma boa ideia conhecê-los - não são como seus pais – só queria que você estivesse ansiosa por isso. Saber mais sobre mim. Às vezes, sinto como se você não pensasse num futuro pra gente. Como se só fosse o agora.”
Odiava quando ele falava como se fosse um coitado mal amado. Fazia com que eu me sentisse mesmo uma pessoa tão insensível. E o pior era que eu sabia o quanto ele também odiava parecer tão sensível, e que se deixava que eu o visse dessa forma era porque realmente o estava enlouquecendo. Então, talvez eu fosse mesmo tão insensível...
“Mas eu penso no nosso futuro.”
“Naquele em que não poderemos nos ver nunca? Onde tudo dá errado com a gente?”
“Isso não é justo. Você sabe que sou assim, insegura. E gosto quando você me diz como pode dar certo.”
Ele jogou a cabeça contra o volante. “Estou agindo como um idiota de novo, não estou?”
“Você vai acabar conseguindo me deixar doida de vez...”
“Desculpa. Não sei por que fico pensando essas bobagens.”
Quis afagar seus cabelos e sussurrar em seu ouvido as palavras, mas meu coração deu um salto tão grande que acabei por desviar o olhar para a janela ao meu lado quando confessei. “Eu vou te amar pra sempre, Scott...”
Seu silêncio me incomodou. Esperava que ele dissesse “Eu também”, ou pelo menos qualquer coisa que não me fizesse desejar ter mantido a boca fechada. 
Forcei-me a olhar por um tempo desconfortável para a paisagem estática além da minha janela até me sentir ridícula demais e voltar minha visão para o garoto descansado sobre o volante.
“Já está bem tarde, Scott. Melhor começar a dirigir logo.”
Não tive resposta. Ele estava dormindo? Não era possível... Só que realmente estava. Não pude evitar uma risada. Scott esteve tão cansado àquela noite, com um humor estranho, manhoso demais... Não se aguentava mais de sono. 
Sequer ouviu o que lhe disse. Mas não era como se já não tivesse cansado de lhe repetir que o amava. Sempre lhe confessava enquanto fazíamos amor, mas pensando sobre isso, não tinha o costume de lhe dizer em outras ocasiões, mesmo que ele me dissesse em cada beijo estalado que me desse. Ele teria gostado de ouvir naquele momento, disso eu sei... E eu ainda disse pra sempre... Pra sempre é tanto... 
Queria ter sido apresentada aos seus pais como sua namorada. Queria ter visto suas fotos de quando mais novo e escutado suas histórias. Queria que nossas famílias tivessem se reunido. 
Mas o que eu queria mesmo, eu nunca vou poder ter, não é, Scott?!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

24- Esquentando x Esfriando



Abaixei-me também, envolvendo aquele corpo tão doente quanto o meu.
“Me perdoa, por favor...” Implorei.
“Te perdoar? Você não entende... O meu coração é seu, Mariana. Faça-o em pedaços quantas vezes quiser, ele continuará sendo seu.” Confessou sem forças, “Eu só sei te amar...”
Meu organismo deve ter parado de funcionar por um tempo enquanto eu tentava absorver as palavras mais lindas que ouvi em toda a minha vida. Scott podia ter dito “Eu te curto” que causaria o mesmo efeito, era por vim dele, era por ser quando pensei que estaria tudo acabado. 
“Você também não entende que a sua dor em mim dói muito mais que a minha própria.”
Scott tirou sua cabeça do meu ombro para olhar dentro dos meus olhos. Beijamo-nos e fizemos amor com uma paixão que só se conhece uma vez na vida. 
Eu nunca esqueceria o dia em que Scott Meyer me tomou em seus braços pela primeira vez.
***
“Eles me amam, você não devia estar tão agitada.” Scott dizia do outro lado da linha.
Eu tentava manter minha voz a mais baixa o possível para que meus pais não me ouvissem da varanda da casa. “Você que está calmo demais. O seu treinador pode te adorar o quanto for, mas meu pai não vai ficar nada contente em receber o meu namorado.”
“Daqui a pouco estou aí e então você verá. Não há nada para se preocupar...” Ele precisava me ensinar a ter essa autoconfiança inabalável. “Tem certeza que não seria melhor avisá-los que estou indo?”
“Não mesmo!”
Scott gargalhou do outro lado. “Que medrosa! Mas tudo bem... Só não pense que eu cheguei até aqui pra desistir fácil assim. A parte mais difícil eu já consegui que foi você...”
“Mais difícil? Você não conhece mesmo o meu pai.”
“Fica tranquila, amor. Só vou pegar as chaves e já estou aí. Não demoro.”
“Até logo...”
Scott esteve me enchendo a paciência para ser apresentado aos meus pais como seu namorado. Ele tinha esse gênio teimoso de querer as coisas mais complicadas, mas quando ele me dizia “Fica tranquila, amor” eu apenas ficava.
Meu pai estava me achando estranha, mas desconfiada mesmo estava a minha mãe. E quando apareci na sala, onde meus pais estavam, com minhas mãos dadas com o Scott eles compreenderam no mesmo instante.
“Boa tarde, senhor e senhora Vasconcello!”
Minha mãe era uma perfeita anfitriã mais que tudo e, antes que o constrangimento dominasse o ambiente, abriu um sorriso convidando o Scott a se sentar. Meu pai não conseguiu abrir a boca minuto algum. Já o Scott parecia tão calmo como se estivesse numa festa com seus amigos; e a sua paz fazia a minha.
Nada de mortos ou feridos. Meu pai não disse estar satisfeito, mas também não disse o contrário o que preferi acreditar ser por ter aprovado a minha escolha. Minha mãe ficou radiante depois da nossa conversa. Mais um ponto para o convencido do meu namorado.
“Viu? Eu disse que eles me amam...” Scott se gabava dirigindo até a casa da Kate.
“Bem, se eles não te amassem eu podia ter alguma salvação. Talvez eles me levassem pra fora do país, sei lá...”
“Sonhe, Mari, ou aceite a verdade: Você nunca vai se vê livre de mim. Nunca. Nunca.”
Dizem que não devemos dizer coisas como “sempre” e “nunca”, mas é aquele tipo de lição que você apenas ignora. Mas quem disse que o Scott já me fez alguma promessa que não cumprisse? Esse garoto não conhecia limites.
Tinha passado a apreciar bastante a companhia da Kate, mesmo que às vezes eu não pudesse deixar de sentir uma ponta de ciúmes pela necessidade do Scott em compartilhar tudo o que lhe acontecia com ela. A amizade deles era mesmo algo para se invejar.
Kate era uma borboleta e como ela poderia ser feliz se não fosse livre pelos ares? Engraçado como pensávamos diferente sobre o amor e liberdade. Ela parecia feliz com suas escolhas, mas você só precisava conhecê-la um pouco mais para descobrir que só parecia... 
Matheus sempre foi um rapaz maravilhoso, alguém pode imaginar o quanto ele não era impecável com a sua amada Kate? Enquanto ela tinha apenas dado uma diminuída em suas noitadas, Matheus parecia um anjo firme ao seu lado mesmo que tudo que fosse ter do coração da Kate fosse ser sua gratidão. Mas o que mais me fazia doer o coração era vê-lo sendo chamado entre os amigos desde babá a corno manso. Só posso dizer que cada um faz suas escolhas e esperar para que eles tivessem consciência das que estavam fazendo.
“Ruivinha!” Scott chamou passando pela porta da casa destrancada.
“Colli, o tio bobão acabou de chegar!” Ouvimos Kate falar alto para chamar a nossa atenção para onde ela estava no quintal.
“Cadê a princesinha?” Scott parecia mesmo um bobão quando falava assim, mas conseguia me arrancar ainda mais suspiros.
Matheus segurava o balanço de pneu parado da árvore onde Kate estava sentada e Colli escorria pelas pernas da mãe correndo precoce para a idade mesmo que completamente desajeitada.
“Meu!” A pequena disse com cara emburrada para mim segurando as pernas do tio.
Scott a pegou no colo rindo. “Todo seu!”
“Isso! Ensina coisa errada pra menina!” Fingi me importar.
“Ih, acho que deixamos a titia com ciúmes, Colli, e agora?”
“Colli vião” Aqueles bracinhos miúdos se esticavam pelo ar pedindo para o tio fazer a sua brincadeira preferida de avião.
***
Sabe quando você olha para a sua vida e sente que por mais que não esteja tudo perfeito você tem até se esquecido que tem alguma coisa para reclamar? Talvez você não saiba, eu mesma não sabia o que era sentir isso até que resolvi parar de me limitar tanto e fui com tudo no que eu mais temia: Scott Meyer.
Foi numa tarde, enquanto esperava o tempo passar logo para me encontrar com o Scott que percebi que nunca fui tão feliz.
Scott gostava de fazer longos planos para o futuro, mas todo dia ele achava que devia mudar alguma coisa e todo dia eu planejava com ele um novo caminho. O que nunca mudava era a melhor parte: eu e ele juntos para sempre. Para todo empecilho que eu enxergava que pudesse nos afastar um pouco que fosse (como a faculdade), Scott dava uma solução. Pensei de verdade que nem mesmo por mínimo tempo precisaria sentir a sua falta. Acho que eu estava começando a ver o mundo como ele via, onde os únicos problemas que existiam eram os que nós mesmos criávamos e que poderiam ser facilmente arrumados.
Chuva e frio me lembram do Scott, então, acho que não deveria sentir calafrios e odiar tanto esse tempo agora...
 “Você não devia pisar nesse chão frio descalço...” A verdade é que eu jamais reclamaria por tê-lo caminhando nu no quarto, mas com aquele tempo congelante eu me preocupava.
“Tenho você pra me aquecer.” 
“Então volta.”
“Só vou ver quanto tempo ainda temos até te levar de volta ao dormitório.”
Bufei e puxei as cobertas para cima da cabeça. Meus pais estavam de marcação e com isso minhas noites dormidas com o Scott tinham terminado.
“Que estranho... tem várias chamadas perdidas da Kate.”

domingo, 16 de outubro de 2011

23- Luzes x Sombras

“Gostou?” Ele perguntou.
“Como você...?”
“Venha.” Ele abriu a porta do carro.
Do lado de fora do carro consegui perceber que as luzes brilhantes na varanda da casa e pela pequena trilha eram velas.
“Scott, isso é lindo.”
“Sabia que ia gostar.”
“Que lugar é esse?”
“Um presentinho dos meus pais.”
Olhei incrédula.
“Vem, vamos entrar. Tem mais.”
Pegou minha mão e me guiou até o interior. Mais algumas velas iluminavam a casa por dentro. Paramos diante de uma mesa de jantar.
“Me dê crédito por ter encomendado uma comida deliciosa... Achei melhor não te fazer de cobaia dos meus dotes culinários ainda.”
O jantar foi um sonho.
O relógio pregado na parede me mostrando o tempo passar tão rápido me fez lamentar.
“Precisamos voltar, Scott.”
Ele não acompanhou meu olhar para o relógio. “Só se você quiser.”
“E se a Direção não fechar as portas do dormitório às dez.”
“Ou se eu te disser que não vamos ter problema algum com a direção, se passarmos a noite aqui.”
Passar a noite com o Scott... Como ele conseguia fazer um convite tão explícito com aquela cara de tranquilidade? Gelei dos pés à cabeça.
Ele percebeu e me deu o golpe mortal abrindo seu sorriso irresistível.
“Tudo bem. Vamos.”
Eu esperava por insistência, mais argumentos... ou, ao menos, um pedido. Como ele sempre agia; quando Scott Meyer não conseguia o queria? Eu era a prova viva que sua insistência o levava longe. Minha frustração era por minha vontade louca de não voltar para o dormitório.
“Como assim não teríamos problemas não voltando?” Perguntei sem encará-lo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
“Da mesma forma que não temos nos encontrando no depósito.”
“Ah...”
“Quer arriscar?” Ele perguntou depois de um tempo, já com a mão na maçaneta da porta.
Por que diabos ele não estava agindo como sempre? Sem pedir minha opinião. Sem dar pouco caso ao que sugere.
Eu me vi sem controle, jogando meu corpo sobre o dele. Meu desejo era tão grande... Se ele não estivesse já abrindo a porta, o que eu teria feito? E a minha maldita virgindade já perdida? Talvez fosse melhor assim, apenas ir dormir.
Scott que já tinha aberto um pedaço da porta a fechou abruptamente. “Droga!” Olhei para seu rosto, ele me fitava impaciente. “Você não quer ir. Por que não diz?” Puxou-me para si pela cintura. Enquanto alisava meus cabelos com uma das mãos, seu sorriso tomava o lugar do aborrecimento. “Você é perfeita...” Disse baixo antes de me beijar.
Quando ele começou a tirar a minha primeira peça de roupa eu sabia que não podia mais adiar contar a ele a verdade sobre o que aconteceu em sua ausência. Prendi sua cabeça entre minhas mãos, seu rosto... Eu vi a coisa mais louca da minha vida; tão além do Scott, dentro de mim. Meu amor por ele não era algo que eu pudesse arrancar do meu coração; não estava de passagem. Era parte de mim, tal como cada parte do meu corpo, da minha alma. Eu nunca deixaria de amá-lo. Nunca deixaria de sentir como se o mundo fosse acabar só em pensar em perdê-lo. O que ele quisesse de mim ele já possuía. Eu faria qualquer coisa... sim, qualquer coisa por ele.
“Mari...” Ele sussurrou. Só então notei a sua expressão profunda. “Eu te amo tanto...” Repousou seu rosto no meu ombro.
Não sabia o que estava acontecendo comigo quando as lágrimas começaram a cair. Eu não podia deixar de contar-lhe a verdade, mas se eu contasse...
“Eu não sou mais virgem.” Disse de uma vez, antes que desistisse.
Demorou uma fração de segundo eterna antes que ele levantasse o rosto do meu ombro e me olhasse nos olhos. “O que você disse?”
Não consegui sustentar o olhar e encarei minhas próprias mãos. “Não sou mais virgem.”
“Matheus?” Perguntou-me quebrando o silêncio.
“Foi.”
Ouvi quando Scott inalou profundamente ar e, logo em seguida, levantou impaciente. Passou uma mão pela boca e encontrou meus olhos.
Quis mais do que nunca voltar atrás, não há poucos minutos quando contei o meu feito ao Scott, também não até quando me entreguei ao Matheus, muito antes disso tudo... Para quando era tudo bem menos complicado e onde tudo que nos mantinha separados era o meu não. Faria o meu medo cair em sono pesado e diria mil vezes sim para o Scott.
E ali, de frente para um Scott desiludido, eu podia sentir a sua dor no meu peito somada com a minha própria. Esse seria o nosso adeus? Tinham sido aqueles nossos últimos beijos? Nunca mais sentiria seu coração batendo forte contra o meu?
Minha respiração estava desordenada; sentia o ar faltar. Tentava a todo o custo não parecer tão desesperada em sua frente. Não queria que ele me odiasse ainda mais.
“Você me disse várias vezes que eu brincava com seus sentimentos. Engraçado. Muito engraçado.”
Scott meneou a cabeça e seguiu para a porta.
Meu orgulho ainda gritava dentro do meu peito que eu ignorasse tudo aquilo, que se ele me amasse ele encontraria uma forma de me perdoar e me compreender. Que seria melhor assim, sem ele. As coisas voltariam aos seus lugares aos poucos e mais pra frente eu poderia agradecer por esse dia.
Ignorei todas as vozes que gritavam dentro de mim. Eu sabia que sobreviveria sem o Scott, sabia que mundo não iria parar e que um dia eu estaria bem novamente. Mas o que eu não sabia e desejava ardentemente saber era como seria a minha vida com ele. E que se eu não tentasse tudo por isso eu jamais poderia me perdoar.
Corri até a porta antes que ele conseguisse tocar a maçaneta e me pus entre os dois.
“Sai... por favor.” Pediu.
Eu não sabia o que dizer ou o que fazer.
“Não quero te tratar mal.”
“Se for esse o seu preço para ficar...”
Suas sobrancelhas se uniram. “Vou pelos fundos.” Virou as costas já andando.
Agarrei uma ponta da sua camisa. “Não, Scott. Por favor, não vá.”
Ele parou.
“Eu não sei o que fazer, mas não posso te perder.” Confessei.
Virou-se. “Eu não te entendo, Mariana...” Scott chorava. “É ele que você ama?”
“Não!”
“Então, por quê?... Por que me odeia tanto? Porque insiste em me castigar? Por que faz isso comigo se tudo o que eu quis foi te amar? Só queria poder te amar...” Segurou meu rosto e deixou-se cair no chão apoiado em minhas pernas. “Agora você diz que me ama, mas não entendo... Me deixe ir, por favor... Sai do meu coração, que já nem me reconheço mais.”

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

22- Depósito x Rosas


Toquei a maçaneta e respirei fundo uma vez antes de girá-la. Abri a porta apenas o suficiente para entrar e o fiz sem olhar muito adiante, não querendo ver aquele espaço sem o Scott lá, nem mesmo por uma vez sequer.
Ainda estava fechando a porta e tomando coragem quando senti uma força contra, tentando abri-la. Afastei-me. Scott entrou olhando para o chão, depois se virou para fechar a porta. Finalmente ele olhou nos meus olhos. Seu olhar era terno e tão cheio de saudades quanto os que eu encontrava no espelho.
Aquele par de braços fortes me envolveu. Ele aspirou profundo com seu nariz gelado tocando meu pescoço. Eu poderia ter passado a eternidade naquele abraço.
Scott me afastou um pouco, apenas para analisar meu rosto, acariciou-o antes de me apertar novamente em seus braços
“Senti tanto a sua falta...” Tive coragem de dizer, com nossos rostos lado a lado.
“Também...” E me apertou com mais força, antes de me soltar.
“Cheguei a pensar que nunca mais fosse te sentir tão perto de mim, depois do que você me disse sábado.”
Ele se encostou numa parede com seus braços cruzados, depois descruzou e me puxou para si. “Tem ideia do quanto...” Apertou com força meus braços. “Não suporto te ver com outro.”
Flashes dos meus momentos com o Matheus me apanharam. Como eu era suja. Eu não consiga me arrepender inteiramente de nada. Estive tão desesperada por não sentir a falta do Scott...
Repousei minha cabeça em seu peito. “Foram tantos maus entendidos, Scott...”
“Você me dizendo isso... Você pedindo pra me ver... Querendo conversar comigo... Não parece real.”
“Quando você sumiu...” Minha voz tremeu.
Scott segurou minha cabeça com suas mãos e sua expressão era de partir o coração.
“Você me confunde tanto. Tudo o que eu mais quero é poder estar sempre com você, Mari.”
Eu queria dizer as palavras. Era o momento perfeito e elas vivam gritando repetidas vezes dentro de mim. Meu coração batia muito forte. Era algo que eu deveria dizer olhando em seus olhos, eu sei, mas...
Ele me beijou. No início doce como nunca até se perder na intensidade de nossos desejos. O sinal para voltar à sala tocou, mas isso não nos interrompeu. O mundo podia acabar que isso não nos interromperia.
Puxei sua camisa por seu pescoço a fora. Ele me olhou cauteloso, ainda ofegante. “Aqui? Assim? Tem certeza?”
“Eu te amo, Scott.” As palavras saíram, finalmente.
Ele me puxou para si novamente com seus beijos maravilhosos. Parou de repente.
“Não. Eu não posso.”
“O quê?” Exclamei.
“Não quero que a sua primeira vez seja num depósito velho de escola. Fico feliz que queira, mas a gente não precisa ter tanta pressa...” Deu um beijo na minha clavícula.
Minha primeira vez...
“Vamos voltar pra aula agora? Acho que você nunca matou aula na vida, não quero ser o culpado.” Riu. “Ei, vai passar rapidinho. Não faz essa cara...”
Forcei um sorriso.
Durante as aulas minha mente não vagava no milagre de ter me rendido ao Scott, mas sim em como eu o contaria sobre a minha noite com o Matheus. Tudo isso, porque o disse uma vez no mesmo depósito, quando ele ‘insistia’ em ir para o próximo passo, que eu era virgem.
Num mundo perfeito, onde eu não fosse tão idiota... onde ele não fosse tão idiota, teria sido assim. Uma noite romântica e a minha primeira vez com quem eu amava tão perdidamente.
Se o Scott já tinha surtado com o fato de eu estar namorando o Matheus, só nos vendo abraçados e de mãos dadas, imagina quando ele soubesse que compartilhei um momento tão especial da minha vida com outro?
Pensei em mentir. Podia fazer isso. Podia fingir. Seu orgulho não seria ferido e tudo ficaria bem, menos a minha consciência. Passei todas as aulas refletindo sobre isso e, então, decidi-me. Não iria esconder a verdade do Scott. Não era questão de poupá-lo, ou me poupar também - o que parecia a mesma coisa. Só não sabia quando teria a coragem de lhe confessar.
Mal levantei da cadeira para o segundo intervalo e o Scott já estava de prontidão ao me lado. Segurou firme na minha mão e não soltou mais. Perdi novamente a oportunidade de conversar com a Kate, mas isso tinha se tornado uma consciência distante. Todas as minhas prioridades eram o Scott. Decorar cada pedaço do seu rosto, suas expressões, seu movimentos, sua voz... Tudo sobre ele.
Passamos os intervalos entre os clubes também juntos. Era engraçado ver todos os olhares curiosos, uns surpresos, outros nem tanto, por me ver com o Scott.
“Tive uma ideia pra hoje.” Scott falou. “Me encontre na porta do dormitório daqui à uma hora.”
“Que ideia?”
“Surpresa.”
“Ok. Vou contar os segundos então.” Senti-me patética logo que disse, mas ele abriu um sorriso largo que me fez desejar ser patética mais vezes. O amor afeta mesmo as pessoas.
***
Já tinha passado meia hora do “daqui à uma hora” do Scott e nada dele aparecer. Mas eu já tinha esperado por ele muito mais. Esperei dias. Esperei semanas. Esperei meses. Esperei anos. Se eu dissesse que esperei por toda a minha vida, eu não mentiria; esperei sem ao menos saber que esperava.
E quando aquela figura apareceu com um buquê de rosas na mão, saí correndo em sua direção com a fome de toda uma vida. Ele estava mesmo de volta! E pra mim! Comigo! Pulei em seus braços, ele me segurou no colo, com minhas pernas ao redor do seu quadril.
“Mari...”
Arranquei-lhe um beijo sem fim.
“Quando dizem que rosas funcionam, não estão mentindo...”
Ri com ele. Soltei de seu colo, sem vontade, e reparei em suas roupas. “Pra onde vamos?”
“Pra onde você nunca mais vai querer sair...” Disse ao pé do meu ouvido.
Não pude evitar o espasmo do arrepio. Ele me mostrou seu sorriso rebelde.
“Tudo bem, Sr. Irresistível. Leve-me para o paraíso.” Brinquei, oferecendo-lhe minha mão.
Ele a pegou e beijou. “É exatamente pra lá que quero te levar.” Insinuou, deixando-me completamente envergonhada.
“Você fica ainda mais linda assim.” Soltou minha mão. “Só um segundo.” Sumiu da minha frente.
Ouvi o som de um motor e lá estava ele num carro prateado. Saiu do carro, abriu a porta e esperou que eu entrasse.
“Estou começando a ficar realmente curiosa... Pra onde está me levando?”
“Ainda não estava? Acho que vou dar mais voltas do que o necessário para te deixar curiosa por mais tempo, então.”
“Faça isso.” Ameacei.
Ele soltou uma gargalhada. “Como o seu mau humor me fez falta, minha rabugenta linda.”
Fingi me importar, mas me venceu ao dizer que sentiu minha falta...
Enquanto ele dirigia para vai-saber-onde, gostei da minha visão privilegiada.
Ele sorria, percebendo que eu o encarava. Mas nunca parecia o suficiente. Tinha sempre um detalhe novo em suas expressões... E o mais incrível era o simples fato de poder vê-lo.
“Pronto. Chegamos.” Scott anunciou, parando o carro.
Senti minha boca se abrindo com a visão.

21- Celular x Chave


Quando meus pais se dessem conta de que eu tinha saído de casa escondida e que ainda tive a capacidade de não voltar para casa antes que eles começassem a procurar por mim... Já podia visualizar grades e cadeados nas minhas janelas e portas.
Mas como eu podia negar tão pouco, como a minha presença, para Kate depois de tudo que ouvi? Era o mínimo que eu podia fazer por ela.
Expulsei todos de sua casa. Permanecendo apenas o Matheus que me ajudou com a arrumação. Ele não me perguntou o que conversamos em momento algum.
“Eu não queria ter te enganado, só que também não queria que passasse por aquilo...”
“Tudo bem, Math. Só não faça isso novamente, seja qual for a razão, por favor...”
Ele balançou a cabeça, ainda constrangido.
“Mas obrigada, por se preocupar comigo...”
Uma nova luz pousou em seu olhar.
“Consegue colocar a Kate na cama sem acordá-la?”
***
Vi quando o Matheus chegou no colégio na segunda-feira com um olho roxo e o lábio machucado.
“Meu Deus, Math! O que aconteceu?”
Ele abaixou o olhar. “Não foi nada. Desculpa, mas não quero falar sobre isso, Mari.”
“Tá. Mas você está bem?”
“É.” Disse sem vontade. “Vou pra aula, se não se importa.” E me deixou sozinha com milhões de perguntas.
Quando eu entrei na sala fiquei feliz, apenas por ver Scott lá no fundo da classe novamente. Seu olho roxo e cara emburrada me fizeram unir A à B.
“Viu quem está de volta? Ouvi dizer que ele voltou esse fim de semana... Apareceu na festa da Kate lá em Primavera.” Luan comentou assim que me sentei ao seu lado.
“Te contaram? Vocês ainda não se falaram?”
“Ele não parece num bom momento...”
O mau humor do meu querido idiota não era evidente só para mim.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido.
Oi! É a Kate. Peguei o seu número do celular do Scott, espero que não se incomode. Viu o Matheus por aí hoje? Ele não responde as minhas chamadas...
Respondi: Sem problemas. Ele e o Scott andaram se batendo? Estou certa? O que aconteceu com eles? Vi o Matheus pouco antes de entrar na sala, mas ele está todo estranho (além do olho roxo), nem quis falar comigo.
Kate: Ah... Foi isso mesmo. Depois te explico direito, esses dois deram um showzinho no domingo lá em casa. Preciso falar com o Matheus, mas vou ter que esperar o intervalo. =/
Eu: Na sua casa? OO’
Ai, ai...
Kate: É... Matheus chegou em má hora e acabou ouvindo a minha conversa com o Scott, sobre a Colli e tudo mais. Agora ele também sabe.
Mas a briga foi por sua causa...
Eu: Minha causa?
Kate: Por que a surpresa? Eles eram amigos, Mariana...
Eu: Eu sei que errei...
Kate: Colli está aqui... no Brasil.
Eu: OO’
Kate: O maluco conseguiu convencer meus avôs a irem pra Primavera com a minha filha. Agora não sei mais o que fazer. Quero matar esse garoto!
Eu: Não sei como ainda não matou.
Kate: Pois é. A sorte dele é que estava morrendo de saudades da Colli. Mas agora é questão de tempo até toda essa história passear de boca em boca. E eu ainda nem me decidi...
Eu: Sabe que pode contar comigo, né? 
Kate: Obrigada, Mariana. =]
Agora vou deixar você prestar atenção na aula.
No primeiro intervalo tentei alcançar a Kate, saber direito o que estava acontecendo e ajudar como pudesse, mas a Camila me interrompeu.
“Você não precisa mais escrever sobre a ‘saída repentina’ do Scott, porque agora o tema é o seu ‘retorno repentino’... Mas não se preocupe que você não vai escrever essa. Se bem que não escreveu a anterior de qualquer forma... Enfim, acho que você pode ficar encarregada de distribuir os jornais, certo? Só passei pra te avisar. Bye!”
Sem direito de alguma resposta.
Entregar jornal? Isso era brincadeira, certo?
Liguei para o celular da Kate, para saber onde ela estava. Liguei uma, duas, três vezes e sempre caía na maldita caixa postal, até que fui atendida.
“Quando você liga pra alguém e não é atendida repetidas vezes isso não deveria significar alguma coisa? Estou tentando comer aqui.”
Um sorriso saiu sem permissão ao ouvir aquela voz. Como senti falta do meu amor ignorante...
“Cadê a Kate?”
Ele riu debochado. “Ainda não me acostumei com vocês duas tão próximas...”
“Eu fiz uma pergunta.”
“Foi se encontrar com o seu namoradinho.”
Consegui ver de longe o Scott sentado sozinho na mesa do refeitório.
“Você sabe que ele não é mais meu namorado e por que diabos ela deixou o celular dela com a sua excelência?”
“Esqueceu na sala.”
“Você é um mentiroso!”
“Não estou mentindo! Pra que eu iria...”
Interrompi. “Você não está comendo.”
Silêncio. Ele olhou ao redor, mas não me viu.
“Estava, antes de você me atrapalhar.”
“Mentiroso... Não tem nada na sua mesa.”
Ele voltou a procurar com mais cuidado. Escondi-me atrás da pilastra como uma criança arteira.
“Você não está aqui. Como sabe? Ou melhor... Onde está escondida?”
“Não preciso te ver pra saber quando está mentindo.” Que belo casal de mentirosos formávamos. “E estou no mesmo lugar onde costumávamos nos encontrar tantas vezes...”
Silêncio. Comecei a caminhar até o depósito.
“Mentirosa!”
“Claro que não, por que não vem conferir?”
“Não preciso te ver pra saber quando está mentindo. Você não tem a chave, quem tem sou eu.”
Gelei, o que eu ia fazer parada do lado de fora do depósito? “Isso é o que você pensa...” Continuei com a mentira.
“Ok. Estou indo aí te ver.” Desligou.
Meus olhos devem ter soltado da cara. Corri até a porta trancada, lutando inutilmente para abri-la. Um arrepio percorreu por todo o meu corpo quando senti uma mão puxar o meu braço com o mal jeito que só uma pessoa poderia usar comigo e me deixar contente... Por isso a surpresa foi decepcionante ao encontrar um jovem franzinho no lugar.
“Me mandaram te dar isso.” Um pedaço de papel com uma chave dentro.
Ele me conhecia àquele ponto... Destravei a porta.