quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

29- Dor x Dor

“Acho que sim...” Disse menos tonta.
Ele sorriu. “Te amo.” Me deu um beijo rápido e me levou apressado.
A porta da casa se bateu.
Tinha outra porta além da que ligava o quarto ao restante da casa, uma que dava para a rua e que estava protegida com uns pedaços pregados de madeira. Meus amigos tinham conseguido liberar a passagem e foi por ali que saímos sem olhar para trás.
Matheus pegou a Colli do colo da Kate. “Sou mais rápido e assim você consegue correr mais.”
Eles saíram correndo por um lado da rua escura.
Não ouvi a chave destrancando a fechadura tampouco o som da porta daquele quarto se abrindo. Só o barulho de quando ela se bateu com força, fazendo a estrutura das paredes tremerem, que me atingiu. 
Scott me puxou com força me obrigando a correr com ele também. A chuva atrapalhava a visão e atrasava nossos passos em milésimos preciosos. Era difícil saber a que distância Ákyl corria atrás de nós, porque o silêncio da chuva era o mais barulhento de todos, tudo cantava em diversas proporções e era impossível encontrar o som dos passos do nosso ex-diretor quando tudo em que eu conseguia me concentrar era correr ainda mais.
Pensei que o Scott tinha tropeçado em algo quando seu corpo mudou de ritmo e despencou na minha frente. Ákyl tinha acabado de acertar um tiro no meu amor... Scott nunca pareceu tão assustado como naquele momento. O outro tiro foi em mim, logo em seguida, e caí com o Scott no chão.
A chuva pareceu mais fria. Scott permanecia com os olhos abertos, mas duvido que ele ainda estivesse vendo alguma coisa. Perdi os sentidos e desmaiei.
Numa rua perto dali, Kate e Matheus também corriam sem saber mais do que até que ouviram o disparo. Kate saiu como louca na direção do som, Matheus tentou impedir, mas foi em vão. Ele não foi com ela, porque carregava a pequena Colli em seus braços e ele precisava protegê-la.
Matheus encontrou um carro policial perto dali e conseguiram chegar até onde nós estávamos antes que o Ákyl tirasse a vida da Kate que já estava também seriamente ferida no chão.
Finalmente Ákyl pagaria por seus crimes.
Mas não só ele tinha contas a pagar...
***
Fiquei por tempo demais encarando aquele livro diante de mim, com a mente distante, remoendo tudo o que não poderia mais ter conserto.
Matheus pediu licença à moça e me puxou para as estantes enormes de livro.
“Não sei mais se fazem por bem ou por mal.” Comentou brevemente. “Cadê você, meu filho...” Matheus falava com os livros e conseguiu me arrancar uma risada que ele acompanhou, mas tão sem querer como veio se foi. Não era certo sorrir.
“Qual é o nome? Assim posso te ajudar.”
“Não consigo lembrar direito, só vendo pra saber...”
Eu não estava contente, a tristeza ainda estava ali, mas era bom ter comigo alguém que também estivesse triste. Ser triste sozinho era ainda mais triste.
***
Tivemos alta todos juntos. 
Naquele dia fingi ir para a escola quando na verdade fui com o Scott até a casa da Kate, ali mesmo em Almerim. 
Encontramos Matheus com olhos vermelhos acarinhando a Colli que dormia em seu colo no sofá da sala. 
“Cadê a Kate?” Scott perguntou quando não a viu também na sala, ignorando o estado do nosso amigo.
Scott não conhecia o Matheus como eu conhecia. Deve ter acreditado que aquelas lágrimas eram por tudo que tínhamos passado, mas eu podia dizer com certeza que não. Era outra dor, uma que nem mesmo a face serena adormecida da pequena Colli conseguiu confortar.
“Na copa.”
Quando Scott passou na minha frente para ir à cozinha eu previ que a mesma aflição do meu amigo atingiria a todos nós... e nem cheguei perto de estar certa.
Kate estava sentada numa das cadeiras ao redor de uma pequena mesa redonda, cotovelos na mesa, mãos apoiando seu rosto. Ela já nos esperava.
Só então Scott notou que tinha algo acontecendo. “Que houve, Kate?”
“Eu e a Colli vamos embora.” Kate disse sem rodeios.
Um comprido segundo silencioso.
“Embora?”
“Ainda não sei ao certo pra que lugar, qualquer um distante. Tenho alguém vendo isso pra mim.”
“Você está querendo dizer...”
Kate o interrompeu. “Exatamente o que eu disse.”
Scott atravessou para perto da Kate pegou um dos seus braços e ordenou. “Vocês não vão embora!”
Ela passou segundos eternos o encarando quando uma lágrima desceu. Scott chegou a tocar seu rosto para enxugar, mas Kate esquivou o rosto e voltou seus olhos para mim que até então tinha sido apenas plateia. Ele também me olhou e, como se tivesse cometido um crime, se afastou rapidamente da Kate. Minha presença tinha sido completamente esquecida.
Nada foi dito enquanto os dois me encaravam. Ninguém podia fugir daquela verdade que insistia tanto em querer ser aceita. 
Scott ainda olhava dentro dos meus olhos quando começou a dizer. “Você vai precisar de seus amigos...”
“Até o final do dia já estará tudo arrumado e partirei.”
Matheus estava numa tristeza sem fim, mas ele nunca iria para tão longe, deixando tudo para trás, para ir com a Kate. Então, de alguma forma, ele aceitou a sua sentença.
Por outro lado, Scott não tinha limites... ele não sabia ser contrariado. Passou o resto da manhã e parte da tarde remoendo aquele assunto. 
Por mais que eu o amasse eu nunca diria para que ele fosse, eu só não imaginava que não dependia de mim...
Ainda não tinha anoitecido quando ele foi até o meu quarto.
Sentou-se ao meu lado na beirada da cama, pegou uma das minhas mãos e olhou dentro dos meus olhos. A sua expressão era devastadora. Passou uma mão por meu rosto.
Eu queria que ele me dissesse de uma vez, mas não consegui encontrar minha voz.
“Eu te amo...” Ele disse, mas tinha algo diferente dessa vez. “Você entende o que isso significa?”
Esperei que ele continuasse.
“Significa que desejo o seu bem acima de qualquer coisa. Significa que quero a sua felicidade... o melhor para você. Consegue entender isso?”
“É o que também sinto por você...”
Pensei ter visto seus olhos marejarem e isso me deixou ainda mais aflita. “Fala, Scott...”
“Tem algo que eu não posso deixar de fazer e você vai me odiar por isso.” Ele apertou com mais força a minha mão, olhou para o outro lado e pensei que ele fosse morrer pela forma em que inspirava e expirava ar.
Coloquei meus braços ao seu redor. “Calma, amor...” Alisei suas costas. “O que está acontecendo, Scott? O que você vai fazer?”
Ele começou a soluçar no meu peito.
Foi quando eu entendi. 

10 comentários:

  1. Suellen, você ainda vai me enlouquecer!

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  2. Quase te matei por mais esse capítulo e continuam mil dúvidas.
    Suh, você é a próxima da lista dos mortos a menos que acabe logo com essa tortura. :/
    Beijo, palhaça.

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    1. Se me matar fica sem o final, lalala.

      Bjuus, garotaa!!

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  3. Suellen... Fala sério... O Scott ama tanto a Mari e corre pra ficar com a Kate? ¬¬' Os pais dela que paguem guarda costas pra ela e pra menina Ele vai deixar de viver a vida dele pra ficar como babá até quando?! Nada que vc falar vai justificar isso. Não imagina a vontade que estou ´pra te bater.

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    1. O que eles falam e o que sentem não são necessariamente a mesma coisa, Deh.
      Fora que eles também ficam confusos ><'
      Sei que você vai me tacar isso na cara enquanto eu for viva. '-'
      Maas te amo mesmo assim, kkkkkk =*

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  4. Ele acredita que a Kate precisa mais dele... E de certa forma ele sempre precisou mais da Kate. Além disso, eu sempre torci pela Kate: FATO!

    bjosmil! *.*

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    1. Acho que eles se dão muito melhor.
      Sem tempestades.

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